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Consumo de etanol dispara e pode puxar investimentos

04 de novembro, 2015

Terceiro produtor de etanol no Brasil, Minas Gerais passou de exportador líquido do insumo para outros estados a grande consumidor neste ano. A demanda atendida do combustível verde em terras mineiras alcançou 1,076 bilhão de litros de janeiro a agosto, volume 130,4% superior ao registrado no mesmo período do ano passado, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). O recorde histórico veio acompanhado de outra boa notícia para as empresas do setor, a melhor remuneração obtida pelos produtores, informa a Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais (Siamig).
Com a conquista tão esperada dentro do estado, está confirmada a meta de produção também sem precedentes de 3 bilhões de litros de álcool anidro e hidratado, com expansão da cana-de-açúcar destinada às usinas em apenas 1,5 milhão de toneladas, estima o presidente dA Siamig, Mário Campos. Em 2014, as usinas mineiras produziram 2,7 bilhões de litros de etanol. Nos primeiros oito meses do ano passado, a demanda atendida em Minas limitou-se a 466,99 milhões de litros.

O consumo deslanchou depois da plena redução, no atual governo do estado, do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS) sobre o etanol, de 19% para 14%. A medida elevou a tributação sobre a gasolina, de 27% para 29%. Outro fator decisivo para o novo cenário de atuação do setor foi a recomposição da alíquota da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide)/Combustíveis, o que levou ao aumento dos preços da gasolina. Como resultado, o etanol ficou mais competitivo.

“Assistimos, hoje, à atuação de uma Petrobras com certa independência na formulação de preços. Há menor interferência do governo, e, com isso, o mercado sinaliza futuro promissor para o etanol”, afirma o presidente da Siamig. A taxação, que havia sido retirada em 2012, retornou progressivamente até os R$ 0,10 por litro, hoje.

A indústria sucroenergética passa a trabalhar numa condição inédita de equilíbrio, de acordo com Mário Campos, produzindo ao ritmo da demanda do mercado mineiro e vendendo em Minas. Para o consumidor, no entanto, qualquer avaliação sobre os rumos que os preços na bomba vão tomar é, ainda, precipitada.

Em corredores da distribuição disputados em Belo Horizonte, como a Via Expressa e o Bairro Santa Lúcia, o etanol era vendido na sexta-feira entre R$ 2,290 e R$ 2,690 o litro, de acordo com levantamento feito pelo Estado de Minas. Pesquisa da ANP indicou preço médio do combustível em Minas Gerais de R$ 2,401 na semana passada, representando elevação de 17,2% frente ao preço médio registrado de 20 a 26 de setembro, de R$ 2,048 por litro. O custo da gasolina – que sofreu queda no consumo em Minas de 11,4% entre janeiro e agosto, frente a idêntico período de 2014 – subiu 8%, com base na evolução dos preços médios do litro de R$3,240 no fim de setembro e R$ 3,499 de 11 a 16 deste mês.

Vantagem estratégica

Especialista no setor, Júlio Maria Borges, sócio-diretor da empresa de consultoria Job Economia, diz não ter dúvida da vantagem que o consumidor leva na mudança do ambiente de mercado e preços do etanol em Minas, ante a gasolina. “Foi uma mudança favorável, importante e estratégica”, diz o consultor, que defende a valorização do combustível verde.

Sintoma dos benefícios vistos pelo motorista, na análise dele, está na queda do consumo da gasolina. “Quem decide com qual combustível abastecer, nesta hora, é o bolso”, observa Júlio Maria. A ponderação que não pode deixar de ser feita é se o benefício do preço será percebido durante todo o ano. “Aí trata-se de uma outra questão. Nos últimos três anos, tem havido preços vantajosos do etanol durante nove meses por ano e depois eles vinham subindo em janeiro ou fevereiro para ajustar o mercado a uma oferta muito apertada dos produtores”, afirma.

De acordo com o presidente da Siamig, a expectativa é de que os preços do etanol se mantenham competitivos, a um custo para o consumidor entre 67% e 70% do preço do gasolina. A tendência, como observa Campos, é de uma adequação das tabelas dos postos nas próximas semanas, sob a influência dos impactos que a diminuição da renda da população tem trazido ao mercado em geral. “Hoje ainda há desorganização e a concorrência vai atuar sobre as tabelas. É um teste para o consumidor”, afirma. O executivo diz que o mercado deverá chegar a um ponto de equilíbrio dos preços até o início da safra, em abril de 2016.

Desafio dentro e fora das usinas

O etanol hidratado mantém a competitividade diante da gasolina em Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Paraná e São Paulo, com base em dados levantados na semana passada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), embora os preços para o consumidor só tenham caído em Alagoas e Sergipe. A pesquisa mostrou que o custo do combustível nas bombas em Minas correspondeu a 68,62% da gasolina, portanto dentro da perspectiva com que trabalha a Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais (Siamig).

A mudança do ambiente de mercado e do patamar de preços ao produtor no estado dá melhores condições às empresas de se reestruturar, segundo o presidente da Siamig, Mário Campos. “Consideramos, hoje, o início de um ciclo de recuperação, que pode gerar novos investimentos”, afirma. A indústria avalia que a redução do ICMS chegou com 10 anos de atraso e foi decisiva para proporcionar equilíbrio ao mercado. “Nossa expectativa é de que a produção seja do tamanho da demanda de Minas e toda comercializada dentro do estado”, destaca Campos.A reestruturação das empresas, no entanto, consiste num desafio ainda longe de ser vencido no Brasil. As empresas duplicaram a produção entre 2003 e 2010 e isso gerou uma dívida enorme, calculada em R$ 90 bilhões no país, cifra que corresponde a cerca de 120% do faturamento. Em Minas, 37 usinas estão produzindo e 121 municípios abrigam canaviais, estrutura que emprega 80 mil pessoas diretamente.

Campos destaca que novos investimentos e o futuro promissor almejado pelas empresas vão depender da continuidade de políticas públicas voltadas à valorização do combustível verde. Neste aspecto, o consultor Júlio Maria Borges aposta também no poder que a concorrência no varejo pode exercer no sentido da acomodação dos preços em favor de um consumidor antenado às vantagens do etanol, inclusive para a preservação do meio ambiente.

Um bom sinal dado pelo governo federal foi o anúncio do compromisso de reduzir 43% das emissões de gases de efeito estufa até 2030, meta que será levada à Conferência das Partes (COP). O evento vai reunir, em dezembro, nos arredores de Paris, representantes dos 196 países-membros da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC). A meta contempla a elevação da produção e do consumo de biocombustíveis, como o etanol.

Fonte:  Estado de MG

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