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Como especificar empreendimentos sustentáveis

19 de setembro, 2015

A concepção de empreendimentos eficientes e que gerem menos impacto ao meio ambiente requer dos arquitetos um conhecimento que vai além da especificação de produtos cercados de adjetivos como “verde” e “ecológico”. As demandas atuais da sociedade exigem que a sustentabilidade seja tratada como um requisito básico das edificações, e não mais como um artigo de luxo ou argumento de marketing.

Por isso, um dos cuidados a serem tomados no momento da elaboração de um projeto é fugir do “greenwashing”, ou seja, da utilização de soluções que em um primeiro momento parecem agregar sustentabilidade ao projeto, mas que, na verdade, não diferem muito do produto tradicional. Isso pode ser feito, por exemplo, com a verificação prévia do atendimento à legislação por parte do fornecedor, incluindo normas técnicas. Também passa pela exigência de informações detalhadas sobre os produtos a serem adquiridos. “Não basta dizer que a tinta tem baixo índice de composto orgânico volátil em sua composição ou que requer baixo consumo de água e energia para produção. É preciso informar quanto”, explica a arquiteta Cristina Umetsu, gerente da Equipe de Consultoria de Projeto Sustentável e Eficiência Energética do Centro de Tecnologia de Edificações (CTE).

Os selos verdes, que muitas vezes servem de parâmetro para a especificação de soluções sustentáveis, são importantes ferramentas de apoio para a tomada de decisão, mas devem ser usados com cautela. Para o professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e conselheiro do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS), Vanderley John, o fato de o produto ter um selo é positivo, pois demonstra que o fabricante submeteu seu produto a avaliações. Mas é preciso investigar quais foram os critérios de análise, pois eles podem ser mais brandos do que a expectativa do consumidor. “As certificações ambientais possuem papel fundamental na melhoria das práticas de mercado, mas de forma alguma são garantias de plenitude sustentável”, acrescenta o arquiteto Marcelo Nudel, especialista em sustentabilidade e eficiência energética da Arup no Brasil.

OLHO NO FUTURO
A adequação climática é um dos aspectos mais críticos. Para Marcelo, a combinação entre orientação solar, formato do edifício, posicionamento correto das fachadas de vidro e sombreamento externo é mais eficaz do que qualquer tecnologia sustentável. “Vidros de alta eficiência são recursos interessantes, mas devem ser explorados em segunda instância”, diz. Para o arquiteto, ignorar as condições climáticas é um dos erros mais cometidos quando se concebe edifícios no Brasil. “O clima tropical não permite grandes panos de vidro desprotegidos indiscriminadamente, mesmo que sejam de alta eficiência, sob risco de perda significativa de eficiência energética, de conforto térmico para os ocupantes e de gerar ofuscamentos”, argumenta.

A análise de ciclo de vida da construção é outro ponto que precisa ser mais trabalhado nos projetos. Embora os edifícios sejam concebidos para durar ao menos cinco décadas, a regra ainda é privilegiar a economia na fase de construção sem se ater ao retorno do investimento ao longo dos anos. Um exemplo pode ser visto na instalação de hidrômetros para monitorar o consumo individualizado e por uso final da edificação. Trata-se de um custo adicional para a construção, mas que pode ser um grande instrumento de gestão para quem vai cuidar do prédio. “Mesmo que o custo de instalação de um painel fotovoltaico ou de um sistema de tratamento de esgoto seja impeditivo no cenário atual, poderíamos ao menos projetar e construir uma infraestrutura mínima para permitir a instalação futura de alguns equipamentos durante a operação do prédio, sem ter que parar seu funcionamento”, propõe Cristina. Para ela, um grande problema é que, geralmente, as equipes que trabalham com projeto e obra não conhecem a rotina e as dificuldades para a manutenção de um edifício em funcionamento. “Seria importante termos um trabalho mais integrado e com o envolvimento das equipes com experiência em operação predial desde as fases iniciais de projeto, para evitar custos adicionais, retrabalhos, paradas de operação e desperdício tecnológico”, defende a arquiteta do CTE.

Minimizar os impactos ambientais de um edifício passa, também, por um processo de construção com ótima gestão. Boas práticas de projeto podem diminuir perdas de materiais ao privilegiar a modulação de partes do edifício em função de elementos construtivos disponíveis no mercado, ou ao garantir o dimensionamento adequado das estruturas, evitando o uso desnecessário de concreto e aço.

Fedde de Weert

Muito além dos materiais especificados, a procura pela sustentabilidade nos projetos deve começar durante concepção arquitetônica. Na Wind House, residência unifamiliar projetada pelo arquiteto Ben van Berkel em Noord- Holland, na Holanda, os conceitos de eficiência começam a ser percebidos na implantação da casa, com layout que privilegia a atenuação da incidência direta do sol sobre as fachadas

AVANÇOS NOTÁVEIS
Embora ainda haja um longo caminho a ser percorrido para que se tenha um número consistente de construções sustentáveis no Brasil, algumas conquistas recentes são evidentes. “Uma delas é o maior uso de sistemas industrializados pelas construtoras, como os banheiros prontos”, menciona Cristina, reforçando que a industrialização é uma estratégia importante para reduzir o desperdício de materiais e aumentar a produtividade. Também são notáveis os avanços no campo dos materiais, como os concretos com redução de clínquer e menos cimento na mistura, os pisos drenantes, as lâmpadas de alta eficiência e os revestimentos que incorporam matérias-primas recicladas em sua produção.

Outro exemplo é o resgate do uso da madeira transformada, obtida de reflorestamento, como elemento estrutural e de vedação. “Tendência no Reino Unido e na Austrália principalmente, o interesse pelo material se deve ao fato de ser uma matéria-prima 100% renovável, neutra em carbono, com desempenho estrutural comparável ao concreto, só que mais leve, além de ser adequada para pré-fabricação e de fácil transporte”, explica Marcelo.

Soluções combinadas
O arquiteto Ben van Berkel, do escritório UNStudio, explorou uma implantação pouco convencional para aproveitar as melhores condições de ventilação, insolação e privacidade no projeto da Wind House. O formato incomum das paredes permitiu criar vários pequenos terraços que atenuam a incidência direta do sol sobre as fachadas, revestidas com ripas de madeira que se projetam para fora nos pontos as janelas da cozinha e do banheiro. Materiais que garantem maior eficiência e conforto à construção tiveram preferência, caso do revestimento com estuque de argila natural utilizado em algumas paredes e tetos.

Fedde de Wart

FICHA TÉCNICA
LOCAL
Noord-Holland, Holanda

CONCLUSÃO 2014
ÁREA CONSTRUÍDA 1.677 m²
ARQUITETURA UNStudio
ESTRUTURAS Pieters Bouwtechniek
INSTALAÇÕES Ingenieursburo Linssen e Elektrokern Solutions
LUMINOTÉCNICA Elektrokern Solutions
CONSULTORIA DE ACÚSTICA Hans Koomans Studio Design

Fachada de madeira
Com 220 apartamentos, o edifício de uso misto New Acton Nishi foi projetado para maximizar o aproveitamento da luz natural e da vista, sem abrir mão da eficiência energética. Pela modelagem do edifício em 3D foi possível analisar o desempenho de diferentes alternativas em relação à temperatura, vento, caminho do sol, sombra, ruído e vista. Os estudos permitiram a inclusão de elementos de design passivos, como átrios centrais e fachadas operáveis. Equipado com coletores solares nos telhados, que asseguram 60% da demanda de água quente nos banheiros, o empreendimento chama atenção pela fachada com ripas horizontais de madeira e mais de 90 caixas suspensas com vegetação presas a estruturas de alumínio. A solução, além de adicionar volume à fachada envidraçada, ajuda a manter o edifício fresco.

John-Gollings/Divulgação

FICHA TÉCNICA
LOCAL
Canberra, Austrália

CONCLUSÃO 2014
ARQUITETURA Fender Katsalidis Architects, Suppose Design Office e Arup
ESTRUTURAS AWT Consulting
CONSTRUÇÃO PBS Building Group

Leed em foco


FICHA TÉCNICA
A construção do Edifício Odebrecht São Paulo incorporou uma série de ações visando ao selo Leed na categoria Gold. As mais impactantes estão relacionadas ao consumo de energia. Aumentando a eficiência de elevadores, equipamentos de climatização, bombas, sistemas de iluminação e das condições das fachadas, o empreendimento alcançou uma redução no consumo de energia superior a 18%. O projeto conta com sistema de coleta de água de chuva e com tratamento de água de reúso para alimentar as bacias e mictórios. Também possui um muro vegetado de 1.500 m², que contribuiu para a melhoria da qualidade do ar por meio da absorção de CO2, além de favorecer o isolamento térmico e acústico do edifício.

Daniel Ducci

LOCAL São Paulo, SP
CONCLUSÃO 2013
ÁREA CONSTRUÍDA 57.746,87 m²
CONSTRUÇÃO Odebrecht Realizações Imobiliárias;
ARQUITETURA Aflalo/Gasperini
PROJETO DE INSTALAÇÕES ELÉTRICAS E HIDRÁULICAS PHE
PROJETO DE AUTOMAÇÃO SI2
PROJETO DE LUMINOTÉCNICA Mingrone
CONSULTORIA EM SUSTENTABILIDADE CTE
PAISAGISMO Soma Arquitetos
MURO VERDE Canevaflor
ELEVADORES Atlas Schindler

Transparência eficiente


FICHA TÉCNICA
A Unidade de Operações da Bacia de Santos da Petrobras foi projetada para receber 7 mil funcionários da companhia e para concentrar as atividades relacionadas à exploração do Pré-Sal. O projeto teve como ponto de partida a conservação de parte de um armazém de 1884. Também incorporou práticas para garantir eficiência energética com predominância do uso de luz natural, reuso de água e recuperação das espécies endêmicas ou em extinção na flora local. A fachada combinou diferentes vidros insulados serigrafados em camada dupla e de baixa reflexão para garantir a permeabilidade visual para o entorno paisagístico sem comprometer o controle da carga térmica. O empreendimento recebeu a certificação Leadership in Energy & Environmental Design (Leed) na categoria Gold.

Eduardo Raimondi

LOCAL Santos, São Paulo
CONCLUSÃO 2014
ÁREA CONSTRUÍDA 140 mil m²
ARQUITETURA Ruy Rezende Arquitetura
CONSTRUÇÃO Construcap
CONSULTORIA EM CONFORTO AMBIENTAL E SUSTENTABILIDADE CTE
CONSULTORIA EM FACHADA QMD e Aluparts
CLIMATIZAÇÃO E AR-CONDICIONADO Datum
VIDRO SERIGRAFADO Glassec

AU

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