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Ela mudou de vida para trazer ao Brasil uma escola ecológica e holística: a Schumacher

15 de junho, 2015

Juliana tinha uma carreira promissora. Tudo parecia bem, mas não estava. Analista na área de Comunicação e Sustentabilidade na Bunge Brasil, multinacional de agronegócio, Juliana Schneider, hoje com 28 anos, tinha como função aumentar a consciência dos colaboradores da empresa sobre a questão ambiental.

Por tratar tanto do tema, percebeu que havia uma incoerência no que fazia. E entrou em crise, seguiu trabalhando normalmente, mas já sabia que não conseguiria sustentar aquela vida por muito tempo. “Meus horários de trabalho eram insanos e a aplicação da sustentabilidade na empresa era muito limitada. Mas, aqui dentro, eu não tinha limites para investigar a sustentabilidade em mim”, diz. Foi em um retiro, em 2010, que Juliana percebeu que precisava viajar. E mudar.

Nascida no interior do Rio Grande do Sul, morou em Santa Catarina e se mudou para São Paulo após voltar de Londres, local para onde sua intuição a guiara após o retiro de 2010. À época, Juliana foi para a capital inglesa sem ter ideia do que faria — ou encontraria — por lá. Até receber em mãos uma revista que falava de uma tal Schumacher College, que fica em Totnes, a cerca de 300 km de Londres, no Reino Unido.“Comecei a ler e no segundo parágrafo eu já estava chorando. Já me sentia naquele lugar, agora era só descobrir como chegar lá”, lembra Juliana.

A escola, fundada em 1990, oferece cursos baseados em uma visão de mundo ecológica e holística. Lá, em sistema de imersão, todos os alunos, voluntários e professores vivem em comunidade e participam das tarefas diárias, compartilhando as responsabilidades pelo funcionamento do espaço, que conta com uma casa que funcionou como monastério, prédios que funcionam como dormitórios, horta e pomar. Os afazeres são divididos por todos, até pelo diretor, que pode passar despercebido varrendo o chão. Quem ensina são alguns dos mais respeitados professores quando o assunto é sustentabilidade — entre eles Satish Kumar, um dos fundadores da escola, Fritjof Capra e Stephan Harding — que dão cursos de diferentes durações em áreas como economia, ecologia, alimentação, educação e arquitetura.

No Schumacher College, depois de fazer a comida é hora do 'blessing' antes se servi-la.

Aproveitando o espaço físico e com o conceito de que educação acontece em todo lugar, a qualquer hora, os cursos acontecem em diferentes espaços, do “pub” à floresta. Todos os cursos são baseados em uma visão holística que transforma como os estudantes vivem e trabalham no mundo. Era isso que Juliana queria experimentar. Ainda sem resposta da escola nem informações sobre valores e pré-requisitos, embarcou para a cidade cinzenta. Demorou até que pudesse cursar o Mestrado em Ciências Holísticas, um ano onde ela viveu intensamente a rotina da Schumacher. Mas valeu:

“Me conectei com coisas a nível existencial que me transformaram tão profundamente que deixei de me reconhecer no que as pessoas viam em mim quando voltei ao Brasil”

De aluna ela passou a voluntária e, posteriormente, a facilitadora de cursos. Acabou morando na escola por três anos e, ao final deste período, em 2013, estava latente o chamado por escrever um projeto da Schumacher College no Brasil, dentro do World Wide Schumacher, braço de criação de parcerias da escola. Depois dos ingleses, os brasileiros são a 1a maior nacionalidade presente por lá e fazia sentido expandir as atividades para o Brasil.

A OPÇÃO POR NÃO TER UM PLANO DE NEGÓCIOS

“Eu não tinha um plano de negócios. Tinha a vontade a dar um passo em direção a essa vontade e ver que outros passos poderiam surgir a partir daí”, conta ela. Essa decisão se relaciona com a Teoria da Complexidade, tema de sua dissertação: um conjunto de descobertas no campo das ciências naturais (física, química, biologia) que emergiram na segunda metade do século XX e revelaram uma realidade muito mais dinâmica do que propunham as teorias científicas vigentes até então, trazendo temas como a auto-organização, a não linearidade de interações e o caos inerente a elas. Juliana diz que os insights da Teoria da Complexidade a ajudaram a reconhecer que as realidades nunca estão completas em si mesmas, embora a mente tente completá-los, como ela diz:

“Estamos continuamente caindo na armadilha de desenhar uma realidade antecipadamente ao movimento de vivê-la”

Junto com a também mestranda da escola Mari del Mar Turato, Juliana acionou a rede de alunos brasileiros e conseguiu levantar 30 mil reais, o valor necessário para trazer o diretor e uma professora do Schumacher ao Brasil, em outubro de 2013. De lá para cá, as duas viveram uma coleção de sincronias, como abundantes encontros inesperados com ex-alunos interessados em fazer parte do movimento. A ideia nunca foi (nem será) crescer por crescer. O nome da escola é uma homenagem a E.F. Schumacher, autor de Small is Beautiful (O Pequeno é Lindo, em livre tradução), livro escrito em 1973 que defende a produção em pequena escala, ao contrário da mentalidade empresarial predominante naquele momento, baseada no gigantismo.

EXPANDIR SEM COLONIZAR

O World Wide Schumacher nasceu como resposta à vontade de levar a experiência para mais pessoas. Para expandir, a solução encontrada foi não abrir filiais, evitando colonizar outra cultura. Então, ao chegar no Brasil, não foi replicado o modelo inglês. Em vez disso, abriu-se espaço para que a interação entre as pessoas interessadas trouxesse respostas sobre como e para onde seguir. Obedecendo a essa proposta, já aconteceram desde fim de semana com ex-alunos a um curso de Liderança para a Transição, onde os participantes passaram uma semana na Inglaterra e se encontravam posteriormente no Brasil.

Conversa aberta sobre o Schumacher College e o nascimento da Escola Schumacher Brasil na Arca Urbana, Rio de Janeiro 31 de março de 2015

De maio a dezembro deste ano, está acontecendo o Certificado em Ciências Holísticas e Economia para a Transição, com encontros no interior de São Paulo e valor 16.490 reais, com alimentação e acomodação inclusos. Em junho começou a Jornada de Práticas Políticas Transformadoras, uma colaboração com a Eco Rede Social, em Visconde de Mauá por 6.500 reais e, em outubro, um curso com a professora Patricia Shaw, vinda diretamente da Schumacher, ainda sem valor, data e local estipulados.

O movimento é itinerante e a Escola Schumacher Brasil não tem espaço físico fixo. Os programas e encontros acontecem em vários lugares e as reuniões acontecem em espaços de parceiros, em cafés e nas casas dos envolvidos. Todos os cursos e programas são divulgados no Facebook e por email para a rede de contatos (inscreva-se no mailing a partir do contato no Draft Card, no final deste texto). O Schumacher College também apoia a divulgação em seu site e redes sociais.

A Schumacher College, hoje com 35 colaboradores e 13 voluntários, foi financiada até 2012 pela Fundação Dartington, uma instituição de caridade com foco em artes, justiça social e sustentabilidade. Há três anos, passou a faturar mensalmente £170 mil, o que possibilitou atingir equilíbrio financeiro, sem lucros, e deixou de ser financiada pela fundação. No Brasil, o investimento inicial veio da doação de um inglês apoiador do Schumacher College que cobriu um dia semanal de trabalho de Juliana para que ela pudesse sustentar este movimento com ex-alunos no Brasil, mesmo sem saber o que ele envolveria. O retorno pedido a ela? Disposição e comprometimento.

Na Escola Schumacher Brasil, como não há o peso de uma estrutura física, os custos são calculados por atividade e o lucro vai para os custos administrativos da empresa. Aos poucos, vai sendo criado um caixa para viabilizar movimentos futuros. Todos os envolvidos nos programas têm remuneração por atividade que desenvolvem: professores, professores convidados, quem cuida da administração financeira e por aí vai. E muitos também doam seu tempo voluntariamente.

E A VIDA PASSOU A FLUIR COMO UM TANGO

Desde que saiu da Bunge, Juliana conta, nada é igual. “Sou outra pessoa, assim como minha atividade e olhar.” Como consequência, sua rotina também mudou. Não ter mais um espaço de trabalho fixo, assim como ter passado a trabalhar com pessoas que se tornam amigas, faz com que a separação entre vida e trabalho seja muito tênue. “Embora antes eu gostasse do meu trabalho, não havia um propósito maior do que eu, além da minha satisfação pessoal”, conta.

Abril de 2014- Grupo de brasileiros do programa Liderança para a Transição durante o círculo de encerramento do curso, junto com outras pessoas da comunidade.

Ter aberto mão do salário de multinacional, por vezes, causou desconforto. Durante os quatro primeiros anos, a perspectiva de receber algum dinheiro era baixa ou inexistente, o que fez com que vivesse da generosidade das pessoas e de apoio da família, que se sacrificou para ajudá-la. Na vivência da escola, a relação de Juliana com a sobrevivência foi para além do dinheiro e passou a ter um senso de abundância: lá os alimentos orgânicos são produzidos localmente, e há alimento também para a mente e para a alma, aconchego, abrigo, pertencimento a uma comunidade. Tudo sem nenhum dinheiro envolvido. E nunca faltou nada.

“Eu não sabia o que aconteceria depois. Isso tudo fez parte daquela experiência e não foi necessariamente uma escolha planejada, mas uma escolha de aceitar um convite porque eu sentia que havia algo, havia um caminho, mesmo que eu não soubesse o que era. Hoje, me sinto extremamente privilegiada e grata por a vida ter me proporcionado o que eu preciso para viver em São Paulo e realizar este trabalho”, diz Juliana. Para ela, nada deu errado no processo, porque “errado” pressupõe que havia uma ideia prévia do que deveria acontecer:

“Se soubéssemos de antemão o que seria, teríamos dito muitos ‘não’. Mas há muito aprendizados nos ‘sim’ inocentes que dizemos”

Ela aponta o que mais demandou tempo e presença na implantação da Escola Schumacher Brasil: abrir espaço para todos colocarem sua voz e deixar o que emergir das conversas tomasse forma. Para ela, outro aspecto demandante de qualquer forma de organização em rede é que a pergunta “como as pessoas se envolvem?” é muito presente, mas as pessoas não são dados nem papéis fixos dentro de uma hierarquia, que é a forma tradicional de se pensar. “Elas estão indo e vindo e por isso o trabalho de mantermos a confiança uns nos outros é a base e requer uma vigilância ética e constante”, afirma.

O aprendizado que mais está impresso? Trabalhar na potência dos projetos, mais do que no que já está dado, visível ou conhecido. Ao contrário do que a Schumacher possa parecer para quem está de fora, não se trata de um movimento ao Deus dará. É um respeito, segundo ela, à realidade paradoxal da vida, onde somente ao dar cada passo é que qualquer dança pode ser dançada. Esse é o desafio. “Se você está passivo, não há dança, assim como não é possível dançar se você não está em contato ativo, presente, com o parceiro, com a música, com os outros na pista de dança. Ou, se for muito centrado em si, ou muito impositivo, também não sai uma dança”, diz ela. Lições aprendidas em uma aula de Tango e Complexidade. Complexo? Complexo é viver.

Via Rádio Viva Zen – radiovivazen.com.br

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