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Tempestade que atingiu a Capital no dia 29 de janeiro derrubou centenas de exemplares com mais de nove metros de altura
Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

Apesar de perdas representarem apenas 0,25% do total da área verde da Capital, parques e áreas de lazer levarão anos para se recuperar.

Nestes dias de verão, em que se caminha clamando por uma sombra, é nelas que a gente se apoia — e até o ar, mesmo quente, vira brisa. Esconderijo na garoa, na supercélula de tempestade recente as árvores foram escudos protetores, estancando parte da fúria que veio com vento de direção sudoeste, medido a 119,6km/h na estação do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) do Jardim Botânico, longe do epicentro do estrago. Sem elas, os prejuízos seriam ainda maiores.

Foram arrancadas do chão por completo centenas de tipuanas, jacarandás, flamboyants, guapuruvus, casuarinas, canafístulas (a lista segue…) — em comum, tinham o tamanho: mais de nove metros. Por ter a copa um andar acima da maioria, sentiram mais. As que resistiram em pé, tiveram vários galhos quebrados. Há exemplares rachados na altura do enorme tronco, cena reveladora da intensidade das rajadas. Além disso, como muitas estavam em áreas de lençol freático superficial e solo compactado, suas raízes pivotantes (que auxiliam na sustentação) eram pouco desenvolvidas. Mas estavam saudáveis, em sua maioria.

Essa é a avaliação de especialistas uma semana depois da maior devastação da aclamada cobertura verde de Porto Alegre. Restam muitas dúvidas, mas também há certezas: houve uma perda ambiental significativa para a cidade. Se os números, ainda imprecisos, não impressionam tanto, trata-se de 0,25% do total da área verde do município, as cenas que ainda se veem nas ruas são impactantes. O Harmonia, para onde estão indo parte dos restos, tornou-se um enorme depósito de lenha das mais nobres.

Símbolos paisagísticos vão levar alguns anos para recuperar a imponência. Parques não terão mais a mesma cara. E perde-se com isso benefícios como o equilíbrio térmico, a purificação do ar, os abrigos dos animais e o fluxo da chuva que escorre na superfície.

— O prejuízo é grande pelo dano a cada árvore. Se deixarmos elas como estão, a brotação nos ramos lascados é potencialmente perigosa. Formaram-se feridas profundas, e vão levar alguns anos até que sejam recuperadas — explica André Puente, presidente da Sociedade Brasileira de Arborização.

Recuperação de túneis verdes em até seis anos

A Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam), que ainda faz o trabalho emergencial, não conseguiu contabilizar de forma precisa as perdas. A estimativa de cerca de 3 mil árvores atingidas ainda é bastante empírica. Um dos técnicos mais experientes do órgão, o biólogo Flávio Barcelos Oliveira, projeta que os túneis verdes, formados por tipuanas, levarão até seis anos para fechar novamente. Árvores de grande porte que resistiram vão recuperar o volume em um ano e estarão totalmente recuperadas em dois.

Convidado a circular pela cidade junto à reportagem, Paulo Backes, agrônomo e autor de livros sobre árvores da Região Sul, entre outros, avalia que, com um trabalho criterioso e certamente demorado, será possível recuperar os exemplares ainda de pé:

— A cena que a gente vê é de um evento que extrapolou qualquer previsão que pudesse ter sido feita em relação a manejo, podas etc. Nada disso teria evitado, pois a maioria das árvores eram sadias. O que temos de ver agora é como consertar esse estrago. Será um trabalho longo e cada caso é um caso. Quando se poda uma árvore, não existe apenas um método. É preciso olhar a árvore, entender o seu equilíbrio, e tentar devolver uma harmonia de estrutura para a sua copa.

Backes acredita que os exemplares arrancados completamente poderiam ter sido içados e calçados com estruturas para mantê-los em pé novamente, mais ou menos como no caso de transplantes de árvores adultas. Porém, seria correr contra o tempo. Esse trabalho teria de ser realizado por uma equipe de emergência logo após o acidente, algo difícil para uma cidade em meio a transtornos considerados prioritários, como a falta de energia e água e as obstruções no trânsito.


Foto: Diego Vara / Agência RBS

As tipuanas, seus túneis e protestos

Quando se pensa na beleza verde de Porto Alegre, é comum lembrar das ruas cobertas por árvores altas, que se encontram cobrindo o céu. Nem todos sabem que elas são tipuanas e, por algum motivo ainda sem explicações concretas, trata-se da espécie que mais sofreu na sexta-feira da tempestade. Plantadas em linha, as tipuanas são as estrelas da Rua Gonçalo de Carvalho, do túnel verde do parque Marinha do Brasil, da Rua José Bonifácio, entre outros lugares.

Embora esteja longe de ser a espécie mais frequente na cidade, essa árvore exótica de origem argentina é a que mais se vê danificada pela tempestade. No Marinha, que tem várias delas formando um eixo, ela foi escolhida para incentivar as caminhadas, já que o parque é extenso e estreito. Como seus galhos são muito compridos, distantes do caule que é sua base, tiveram maior impacto do vento. Essa é uma das principais hipóteses levantadas pelos biólogos.

— Como foram plantadas próximas umas das outras nesses eixos, elas tendem a ter uma copa alongada, com ramos bem compridos e altos, algo visível na Rua Gonçalo de Carvalho — explica o agrônomo Paulo Backes.

A espécie tem boa oferta no viveiro de Porto Alegre, pois é mais simples de se criar mudas. Além disso, cresce muito rápido, o que deixa o biólogo e técnico da prefeitura Flávio Barcelos Oliveira otimista em relação a sua recuperação.

— Acredito que em dois anos elas estarão totalmente recuperadas. Na verdade, apesar da tragédia, houve também uma limpeza, já que algumas delas estavam infestadas de ervas de passarinho e fungos. Depois, ficarão até mais fortes — afirma Oliveira, lembrando que o vento é, além disso, um faxineiro da floresta, ajuda a derrubar o que está podre, permitindo a renovação.

As tipuanas também são famosas por outros motivos em Porto Alegre. Em 25 de fevereiro de 1975, o então estudante Carlos Alberto Dayrell subiu em uma, na Avenida João Pessoa, para impedir o seu corte. Foi o primeiro protesto desse tipo no Brasil. Quase quatro décadas depois, manifestantes passaram mais de um mês acampados próximos à Usina do Gasômetro para impedir o corte de árvores, principalmente tipuanas — exigência da prefeitura para que fosse duplicada a Avenida Beira-Rio. Depois de muita negociação, as árvores ficaram, mas não resistiram à tempestade.


Foto: Omar Freitas / Agência RBS

O guapuruvu que presenciou a história

— Imagina quanta história viu essa árvore — disse, pensativo, o aposentado Ciro Camargo, 67 anos, olhando para um enorme guapuruvu caído em um dos canteiros da Praça da Matriz, no centro da Capital.

Ele tinha uma árvore enorme como aquela na frente de casa, que acabou retirada pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente. Quando isso ocorreu, soube que a madeira não tinha muita serventia, e se desanimou com a espécie. De fato, essa é uma árvore nativa das florestas tropicais, que chega a 30 metros de altura e cresce muito rápido, cerca de três metros ao ano. Absorve muita água, o que explica a madeira não muito resistente — inclusive, é utilizada para a construção de canoas. É tombada como árvore símbolo de Florianópolis e pôde ser vista caída também no Parque da Redenção e praças do Menino Deus.

Ela floresce com belas folhas amarelas, e o exemplar da praça que separa os poderes do Estado, adulto, com certeza observou decisões políticas e manifestações de toda a ordem daquele ponto privilegiado. A base tinha sinais de podridão, mas por ser uma das mais altas naquela região, é provável que tenha enfrentado o vento diretamente na copa. Tombou ao lado do busto do professor André Leão Puente, que não foi destruído por alguns centímetros.

— Impressionante a força da natureza. Mesmo com toda a proteção desses prédios em volta, uma árvore desse tamanho não resistiu — lamentou Camargo.

O biólogo Francisco Milanez, da UFRGS, alerta que essa espécie, embora nativa do Brasil, não ocorre aqui no Estado.

— Em um parque, ela é até aceitável. Não deveria estar no meio da cidade, a madeira é mole, por isso cai facilmente. Imagina o estrago que essa árvore faria se caísse em cima de qualquer coisa? — questiona Milanez, que destaca a presença de um guapuruvu em um canteiro da Avenida Teresópolis, o que seria algo completamente inadequado para a arborização urbana.


Foto: Omar Freitas / Agência RBS

Redenção perdeu quase 300 árvores

Bem mais biodiversa do que o parque Marinha do Brasil, a Redenção perdeu 289 árvores, de acordo com a Smam. Pelo menos 1.056 das 10 mil presentes no parque sofreram danos, o que representa cerca de 10%. Pelo menos 145 serão removidas pelo risco de cair. É um dos locais que deve ser evitado até que seja feita uma limpeza mais completa, principalmente em dias de vento forte. Umbus, paineiras e jerivás dividem espaço com eucaliptos e plátanos. Entre as que tombaram, estão timbaúvas, casuarinas, jacarandás e canafístulas. Uma mistura de espécies nativas e exóticas.

— A Redenção é um grande bosque urbano, tem muito mais diversidade do que o Marinha. Sou da linha de que a cidade e, com ela, a arborização, deve ser diversa, não uma monocultura. A redenção representa isso — afirma Paulo Backes.

Nessa situação de um grande aglomerado de árvores, umas protegem as outras — embora algumas mais altas tenham ajudado outras menores a caírem junto. Durante o passeio com ZH, Backes percebeu um tipo de acácia de que gostava muito, mas que ainda não tinha a espécie identificada, por se tratar de um tipo incomum do gênero.

— Acredito que se arborização fosse mais biodiversa, talvez o estrago seria menor. Cada espécie tem uma resistência particular à chuva em eventos como esse.

Independentemente da questão solo, da existência ou não de raízes profundas, dá para observar uma tendência de que as espécies mais afetadas, casualmente são as mais plantadas — afirma o agrônomo.

A proporção de árvores exóticas em Porto Alegre é maior do que de nativas, algo que é criticado por muitos biólogos. Normalmente são espécies exóticas, plantadas nas calçadas, as que mais causam problemas com fiações e tem raízes obstruídas por calçadas e encanamentos. De qualquer forma, o esforço para recuperar as árvores que ficaram deve ser uma das prioridades, de acordo com a bióloga Maria do Carmo Sanchotene:

— Mais importante do que plantar é conservar o que existe. Cada indivíduo que se perde faz grande diferença, independentemente se trata-se de uma árvore exótica ou não. Mesmo que se usasse mudas de porte elevado, até que se estabeleçam leva muito tempo. Por isso, devemos investir no cuidado com as que ficaram.

Veja abaixo, em foto 360°, a dimensão dos estragos no Marinha do Brasil

Sociedade e prefeitura um pouco mais próximas

Com diversos voluntários dispostos a ajudar na recuperação das áreas verdes, principalmente após a criação de um evento no Facebook, chamado Replantio de Árvores em Porto Alegre, a Secretaria Municipal de Governança realizou uma reunião com o prefeito em exercício Sebastião Melo e outros secretários, na tentativa de estabelecer uma aproximação entre poder público e sociedade.

Os possíveis voluntários, reunidos pelas redes sociais, que convocaram diversos biólogos inclusive, foram orientados a esperar até que a limpeza da cidade avance. Eles serão convocados quando houver segurança, provavelmente para ajudar no plantio de árvores em parques, sob supervisão da Smam. A intenção do grupo é organizar plataformas colaborativas, via internet, para que a população possa ajudar o Executivo a identificar problemas futuros em situações como o temporal da sexta-feira, 29. Mais encontros estão previstos para as próximas semanas.

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