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Aqui é o país do olho maior que a barriga, diz a artista colombiana Ingrid Cuestas. Nômade, ela circula por São Paulo com uma cozinha portátil de onde saem pratos feitos com sobras, oferecidos de graça a quem passa.

“Falam de escassez mas ocorre o contrário, o mau uso do alimento. É preciso discutir isso por aqui”, diz.

A discussão é pertinente. O Brasil descarta um terço da comida que produz segundo a FAO, órgão da ONU para agricultura e alimentação.

A perda de alimentos em países pobres ocorre na colheita, no manuseio e no transporte.
Nos ricos, concentra-se nas etapas finais, em mercados e lares.
Mas o Brasil é “sui generis”: tem problemas em todas as etapas, resume o pesquisador Gustavo Porpino, analista da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).
Aqui, o descarte de comida ainda boa para consumo em casas e mercados representa 40% da perda total.
Esse desperdício não depende muito de políticas públicas.
“Todos têm uma parcela de culpa e podem fazer algo para mudar”, diz Camila Kneip, coordenadora de nutrição da ONG Banco de Alimentos, que recolhe excedentes em mercadões, restaurantes e casas.
Porpino, da Embrapa, analisou hábitos de famílias aqui e nos EUA para sua tese de doutorado.
Constatou que o desperdício em casa ocorre por compras não planejadas, desejo de oferecer abundância e preconceito com sobras.
“O consumidor precisa conhecer a vida rural, entender de onde sai o alimento e o que se gasta para produzi-lo.”
Quando se coloca nessa conta o gasto de água, o problema se torna mais gritante: para a produção de uma maçã, são usados 125 litros.
O Instituto Akatu estima que 41 mil toneladas de comida são desprezadas no Brasil diariamente e, com isso, 100 bilhões de litros de água, que equivalem a 10% do volume útil do Sistema Cantareira.
Nesse cenário dramático, várias ações buscam reduzir o desperdício.
A ONG Banco de Alimentos acaba de criar o “Reverse Delivery” (www.reversedelivery.com.br), em parceria com a Agência Grey.
A ideia é aproveitar o motoboy do delivery para levar ao restaurante alimentos não perecíveis que sobram nas casas.
Ao pedir a comida, o cliente é informado da ação.O Instituto Alana comanda o “Satisfeito” (www.satisfeito.com.br), em que 50 restaurantes de São Paulo e do Rio Grande do Sul servem pratos que priorizam o uso integral de alimentos.
A economia gerada com essas receitas é doada para instituições.
Há ainda as baladas Disco Xepa (www.facebook.com/discoxepa), que surgiram na Alemanha e estão no Brasil desde 2013.
Nas reuniões, são servidas comidinhas preparadas só com descartes de estabelecimentos da região.
O Comida Invisível (www.comidainvisivel.com.br), criado em São Paulo, une duas frentes: quer aprovar uma lei municipal para proibir o descarte de alimentos em aterros e conscientizar a população sobre desperdício de comida, por meio de palestras e de um food truck que servirá pratos com itens recolhidos no Ceagesp.
“O alimento, que nos dá vida, perdeu seu valor sagrado.
Só uma reconexão com esse valor ajudará a solucionar o problema”, acredita Daniela Leite, uma das idealizadoras.
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