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Serviços de compartilhamento de corridas estão chegando a São Paulo. Eles prometem desafogar o trânsito a um preço justo ao consumidor.

A cidade de Masdar, nos Emirados Árabes Unidos, será um referencial de mobilidade urbana eficiente em 2025. Para cumprir seu principal objetivo – tornar-se neutra na emissão de gás carbônico – ela terá transporte subterrâneo e não poluente. Os automóveis serão dobráveis e elétricos. O triunfo progressista de Masdar, porém, é fruto de uma realidade de poucas áreas urbanas do mundo: ela está sendo construída do zero. Lugares que não nasceram planejados e tornaram-se grandes cidades têm dificuldades em criar medidas que diminuam o caos viário e a emissão de carbono. O trabalho demanda paciência, conscientização e deve ser feito em etapas. Uma das premissas para uma metrópole ser inteligente é ter mais gente usando menos carros. Em São Paulo, maior capital do Brasil, a média por veículo é de 1,4 passageiro. É um índice baixo, que pode melhorar com a popularização de serviçoscorridas compartilhadas. A tendência, que começa a se espalhar por Estados Unidos e alguns países da Europa, chega a São Paulo este mês. Uber Pool e Easy Share estreiam com promessa de preços mais baixos e praticidade para convencer o motorista paulistano a abrir mão do seu transporte individual.

 

No caso do Uber, o sistema já funciona em 30 municípios do mundo, e será lançado aqui no dia 29 de abril. O princípio básico é colocar no mesmo automóvel de duas a quatro pessoas que tenham destinos finais próximos. O aplicativo calcula a rota mais eficiente e o preço que cada um paga é equivalente ao seu trajeto percorrido. A economia para quem optar pelo Uber Pool em vez do Uber X ou Black, que são as modalidades individuais, pode chegar a 30%. A empresa informa que, conforme aumentar a adesão de clientes ao sistema, o deconto pode beirar os 50%. O motorista também recebe mais ao aceitar conduzir uma viagem compartilhada.

 

“O que todas as cidades do mundo estão tentando fazer é tirar o carro das ruas e devolver o tempo às pessoas”, diz a ÉPOCA o americano Brian Tolkin, gerente de produto da Uber. São dados fornececidos pela empresa: em locais como Los Angeles, o serviço atingiu mais de 5 milhões de viagens em oito meses, o equivalente a uma economia de 13 milhões de quilômetros no trânsito da cidade. Em San Francisco, onde o Pool já representa metade das viagens do aplicativo, o impacto no meio ambiente foi de cerca de 120 toneladas de carbono na atmosfera em oito meses.

 

O serviço Easy Share, da Easy táxi, já está funcionando na capital paulista para empresas ou pessoas que usam o pagamento direto no aplicativo. A iniciativa é semelhante ao Pool, mas dedicada a táxis.Funciona assim: o táxi pode parar três vezes depois de pegar o primeiro passageiro. Quanto maior o número de pessoas no veículo, menor fica a conta de cada um, podendo chegar a uma economia de 60% na comparação com uma corrida independente.

 

Nesta fase inicial, os pontos de partida dos passageiros devem estar em um raio de proximidade de 250 metros e seus destinos finais, em uma distância máxima de 750 metros. Assim, será difícil conseguir o desconto se não for em casos de grande aglomeração, como a saída de um show ou a porta de um metrô em horário de pico. A medida que a demanda crescer, segundo a empresa, esses limites tendem a desaparecer. “Muitas vezes, uma corrida compartilhada custará quase o mesmo valor de uma viagem com outros meios de transporte, como por exemplo, metrô ou ônibus”, diz Fernando Matias, gerente-geral da Easy Taxi no Brasil.

 

Em ambos aplicativos, os motoristas lucrarão mais por alguns motivos: o preço baixo atrai mais demanda, serão mais passageiros por carro – o que torna cada corrida “mais eficiente” – e as viagens também ficam um pouco mais longas. No modelo da Easy Share, por exemplo, uma corrida individual que custaria R$ 20 passa a custar R$ 12 para cada cliente. Os R$ 4 excedentes também são destinados ao taxistas.

 

Economia compartilhada

O modelo de corrida compartilhada movimentará cerca de US$ 6,5 bilhões até 2020, contra os atuais US$ 3,3 bilhões, de acordo com estimativa divulgada este mês pela Juniper Research. O instituto indica que uma combinação de incentivo a motoristas, horários de trabalho flexíveis e novos modelos de negócios atrairão mais motoristas a companhias como Uber e Lift (que ainda não opera no Brasil).

 

Conceitos como economia compartilhada, inovação colaborativa e cidades inteligentes e humanas têm a tecnologia como uma das molas propulsoras. “Você tem o incentivo do uso da tecnologia e a soma de aspectos humanos. No Rio, há uma tentativa de que as pessoas passem a andar a pé, você ainda tem a ascensão da bicicleta; a tendência é de que as pessoas parem de usar o carro”, afirma o presidente da Rede Brasileira de Cidades Inteligentes e Humanas, André Gomyde.

 

Se nem todos os lugares puderam ser planejados como Masdar, metrópoles desenvolvidas implementaram sistemas informatizados para melhorar a qualidade da mobilidade urbana. É o caso de Santander, na Espanha, onde os semáforos são interligados e possuem câmeras para o registro das áreas quentes de fluxo de carros. Com o monitoramento, é possível alterar o tempo dos farois e remanejar as condições de trânsito a fim de evitar o entupimento das vias. “Isso tudo não é tecnologia para 2050, são ferramentas disponíveis hoje, só que é preciso recurso. Em breve, os carros não terão motoristas, como já projetou o Google”, diz Gomyde.

Uber x Táxis, a briga continua

O Uber Pool pode acirrar uma batalha que ainda não se esvaiu entre taxistas e motoristas de Uber. O vereador Adilson Amadeu (PTB), autor de um projeto de lei que proíbe aplicativos como o Uber em São Paulo – agora autorizados pela Justiça –, critica o sistema e lembra que “não existe almoço grátis”. “Se o dono do veículo não colocar os custos na ponta do lápis, só vai perceber o prejuízo na hora da manutenção ou na troca do veículo. O desgaste do carro nesse tipo de atividade é alto”, afirma.

 

Como a quantia que o Uber repassa ao motorista não é alta, eles muitas vezes cumprem jornadas exaustivas para obter mais lucro, o que o vereador considera “canibalização de mercado”. “Homens não são máquinas, não podem trabalhar 24 horas. Se a tarifa for cada vez mais baixa, o motorista vai trabalhar mais e ganhar menos. Fazer promoção para atrair cliente é uma coisa, canibalizar o mercado é outra”, diz.

 

Evolução do carro na cidade (Foto: Arte/Época)

 

Setor público de olho no compartilhamento

Nessa discussão entra um projeto de lei que visa regulamentar os aplicativos de compartilhamentos de carro em São Paulo, tornando a tendência não apenas de competência privada. Em debate na Câmara municipal, o PL 421/2015 propõe sistemas de compartilhamento na cidade como “car sharing”, um modelo de parceria público-privada semelhante ao já implementado com bicicletas. Nesta proposta, o usuário destravaria o carro de um ponto específico e, ao terminar o percurso, o deixaria em outro local da cidade. O pagamento seria parecido, através de pacotes mensais ou pelo trajeto. Os veículos seriam híbridos e elétricos.

 

“São iniciativas que pretendem colocar mais do que 1,4 passageiros que a gente tem em média nos carros de São Paulo. Uma formas de não gastar dinheiro público e reduzir o congestionamento é tirar pessoas de carros individuais e colocá-las para partilhar viagens que já fazem rotineiramente”, explica o autor do projeto, o vereador José Police Neto (PSD). Os taxistas, segundo ele, atuariam em um mercado regularizado, sendo os únicos com a possibilidade de alocar passageiro na rua, os únicos capazes de receber pagamento em cartão ou cédula e os únicos com pontos de referência estratégicos para o acesso de passageiros, como hotéis e aeroportos.

 

São Paulo tem 40 milhões de assentos vagos em carros individuais: são 40 milhões de viagens perdidas. Em cidades americanas, automóveis com mais de uma pessoa contam com faixas exclusivas, as chamadas “carpool lanes”. Seria uma medida efetiva em metrópoles brasileiras? Difícil, já que o carro afere status. Para André Gomyde, são serviços de compartilhamento que fazem as cidades serem inteligentes e humanas. “Não vejo outra solução. Uma vida compartilhada é boa para todo mundo e para o meio ambiente”. Pegar carona, em breve, não será loucura de adolescente ou de viajante sem rumo, será o futuro enquanto o carro sem motorista não chega.

 

 (Foto: ÉPOCA)

créditos: Arte/Época

Via Mobilize – fonte Época – Autor Paula Soprana

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